
No âmbito do projeto LIFE LUPILYNX estamos empenhados em reforçar as populações de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus algirus) nas regiões da Guarda e Castelo Branco. O coelho-bravo é uma espécie-chave na Península Ibérica desempenhando um papel fundamental nos ecossistemas mediterrânicos. É o principal alimento de dezenas de predadores, incluindo o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica.
Para além da sua importância como presa, o coelho-bravo é um engenheiro de ecossistemas. Ao escavar tocas melhora a estrutura e a fertilidade do solo, aumenta a infiltração da água e cria refúgios utilizados por muitas outras espécies. A sua atividade de pastoreio influencia a composição e diversidade da vegetação, ajudando a manter mosaicos de habitats abertos, característicos das paisagens mediterrânicas e fulcrais para outras espécies como as perdizes. Nas últimas décadas, as populações de coelho-bravo sofreram um declínio drástico devido a doenças como a mixomatose e a febre hemorrágica viral, alterações do uso do solo e fragmentação do habitat, com impactos em cascata sobre todo o ecossistema. Ao apoiar estas populações pretendemos gerar efeitos positivos em predadores como o lince-ibérico, a águia-imperial-ibérica e o gato-bravo.
Recentemente a Rewilding Portugal adquiriu um cercado de reprodução de coelho-bravo. O objectivo é reproduzir coelhos para reintrodução em vários pontos estratégicos do território, sendo que uma seleção cuidadosa dos coelhos reprodutores e fundadores é fundamental. Em colaboração com o CIBIO, recolhemos animais selvagens gentilmente cedidos pela Herdade de Vale Perditos, em Serpa. Esta herdade tem investido na gestão de habitat, controlo de predadores e alimentação suplementar, resultando em populações saudáveis e numerosas de coelho-bravo. Destaca-se ainda a resiliência desta população face aos surtos de mixomatose e febre hemorrágica viral, sugerindo alguma resistência natural. Embora a imunidade natural seja difícil de detetar, damos prioridade a coelhos provenientes de populações que têm resistido a surtos de doenças. Assim, reforçamos as populações locais com animais mais preparados para enfrentar futuros desafios sanitários. A vacinação dos coelhos é um método eficaz mas não é permanente, sendo que as vacinas perdem eficácia ao longo do tempo e não é possível administrar reforços vacinais após a libertação dos animais.

A avaliação genética dos coelhos utilizados nos reforços é igualmente essencial. Em Portugal são apenas autorizadas as libertações de coelhos da subespécie algirus, nativa do território nacional. Em Espanha ocorre também a subespécie cuniculus, que é ligeiramente maior. Assim, todos os animais utilizados são testados para garantir a sua pureza genética. Com o primeiro cercado de reprodução em funcionamento esperamos realizar os primeiros reforços de coelhos em breve. Para ter um impacto real no território, não são suficientes coelhos de um só cercado de reprodução. O número de animais disponíveis é limitado, e a variabilidade genética reduzida. Por isso, planeamos várias libertações com coelhos provenientes de outras populações saudáveis e procuramos colaborar com outros cercados de reprodução da zona.

Os coelhos libertados no campo passarão por um período de habituação de vários meses. Serão colocados numa vedação com cerca de 100m2 com um marouço artificial, comida e água. Esta vedação irá proteger os animais de predadores durante os primeiros meses críticos de habituação antes de ser removida. Serão introduzidos pequenos núcleos familiares de um macho e três a quatro fêmeas para aumentar o sucesso reprodutor. Em zonas onde já existem coelhos não serão feitas libertações para evitar a transmissão de possíveis novas extirpes de doenças. Todas as libertações serão feitas em estrita colaboração com as zonas de caça locais garantindo que estes animais não são caçados durante vários anos, dando-lhes oportunidade para estabelecerem uma nova população.

Para que os coelhos possam proliferar, é fundamental melhorar o habitat. Ações como a construção de marouços artificiais, charcas para abeberamento, sementeiras e desmatações são apenas algumas das medidas a implementar ao longo dos próximos anos.
O LIFE Lupi Lynx é uma iniciativa transfronteiriça com o objetivo de contribuir para a conservação do lobo ibérico (Canis lupus) e do lince ibérico (Lynx pardinus) nas zonas do sul do rio Douro. Cofinanciado pela União Europeia através do Programa LIFE, o projeto tem uma duração de 5 anos e os seus principais objetivos são melhorar as condições sociais e ecológicas para o lobo e lince ibéricos e ajudar as comunidades a conviverem de forma harmoniosa com a vida selvagem, garantindo condições adequadas de habitat e coexistência com as atividades humanas.
Créditos das fotos: João Cosme